Bienal 2017 – Novos Templos

NOVOS TEMPLOS

A primeira Bienal de Artes Contemporâneas (BoCA) assenta numa rede de parcerias entre 40 instituições culturais portuguesas e internacionais que reforça a importância nuclear destas organizações. São, em essência, lugares de ligação e, por isso, desempenham um papel primordial na vida das pessoas. Museus, teatros, galerias, discotecas, espaço público… Os espaços que a BoCA habita são os novos templos de uma sociedade confrontada com a reformulação dos pilares da democracia, ameaçados pelo surgimento de ideologias extremas que propagam separação, medo e incerteza. Nestes tempos e nestes lugares de culto, a arte contemporânea — hoje mais fundamental do que nunca, neste momento histórico — cumpre a sua promessa de liberdade, fraternidade, pensamento crítico e celebração da diferença. Estes lugares tornam-se sagrados pela exceção extraordinária que representam, respondendo à necessidade de inclusão, diálogo e mistério: um lugar onde possamos questionar e refletir, em conjunto, sobre a sociedade de amanhã.

Os novos templos da contemporaneidade, lugares de refúgio e recolhimento mediados pela experiência estética, são como reservatórios de oxigénio que guardam a promessa de segurança. Uma segurança tão sólida que nos dá a confiança necessária para atravessar sombras e escuridão - ou seja, para arriscar e para esperar.

Tal como uma ágora, a BoCA afirma-se como um lugar de pensamento, descoberta, fantasia e celebração. Reivindica o olhar do espectador com obras que ocultam ou expõem - ou até sobre-expõem, como a carta roubada de Poe - diferentes pontos de vista sobre a sociedade e as suas questões políticas, sociais, económicas, filosóficas, de género e tecnológicas, entre outras. A arte contemporânea possui um poder quase divino de nos recordar quem somos e onde estamos: o poder sagrado de nos lembrar quão profunda e frágil é a nossa humanidade.

As mais de 30 obras produzidas, coproduzidas e/ou apresentadas na BoCA representam questões e gestos que traduzem o nosso tempo. São artistas que interrogam a época em que vivem, que se lançam numa intimidade desconhecida e questionam as suas próprias estéticas e linguagens, colocando o presente no centro do seu trabalho e os seus corações na interrogação presente do próprio trabalho. Existe uma dialética de imagens neste programa, concebido em diferentes cidades, países e culturas. A maioria dos artistas que integra o programa está, neste momento, a refletir, a levantar questões e a criar novas obras encomendadas pela BoCA, que estrearão em Lisboa e no Porto. Apesar da distância no espaço e no tempo que os separa, das diferentes culturas e das suas experiências físicas, sensoriais e intelectuais, desenham-se entre eles pontos de contacto: temas, estéticas, vibrações e referências marcadas pelo sentimento generalizado de incerteza em que vivemos. Nesta atmosfera de medo difuso (M. Doel e D. Clarke), as coisas chegam sem aviso e partem sem despedida. Preferimos não viver num mundo que esconde mistérios enquanto finge que não os tem. Preferimos viver o próprio mistério.

Vários artistas do programa referem-se à criação de novos rituais ou novas religiosidades, a partir de diferentes perspetivas e através de distintos objetos artísticos: a artista sueca Anastasia Ax constrói esculturas com fardos de papel reciclado que são ativadas através de uma performance visceral com tinta preta, estabelecendo paralelos com mandalas e o seu simbolismo ligado às forças naturais de construção e destruição; Rodrigo García apresenta Pinball Bosch no Museu Nacional de Arte Antiga, uma máquina de pinball transformada com imagens e sons de As Tentações de Santo Antão, de Bosch; no Teatro Nacional de São Carlos, François Chaignaud e Marie-Pierre Brébant apresentam um recital/instalação duracional baseado na música de Hildegarda de Bingen (século XII), colocando a sua visão ao serviço do divino através de uma relação simultaneamente carnal e meditativa; a artista nepalês-tibetana Aisha Devi e o artista visual chinês Tianzhuo Chen criam uma performance musical no Lux que combina símbolos religiosos e iconografia de subculturas urbanas; a coreógrafa Mariana Tengner Barros dirige e interpreta a peça duracional Instructions for the Gods - i4G no Museu Nacional do Chiado, em colaboração com a designer de moda Estelita Mendonça e o músico Johnny Kadaver; e o artista russo Kiril Savchenkov, cujos vídeos serão projetados na fachada da Casa da Música, apresenta Museum of Skateboarding, um guia de sobrevivência para skaters na cidade que inclui uma rotina de exercícios com mantras, exercícios de respiração e epigramas filosóficos. Esta nova religiosidade, que nos liberta da ditadura da realidade para uma fantasia crítica, está também presente em projetos ligados à tecnologia, como Dead Drops, nas ruas de Lisboa e do Porto, do artista alemão Aram Barthol - pela primeira vez em Portugal; na performance-instalação 1k ways to die da artista sueca Florentina Holzinger em colaboração com a artista espanhola Claudia Maté, expoente da arte digital, ambas também pela primeira vez em Portugal; ou na peça de dança Meeting, dos premiados coreógrafos australianos Anthony Hamilton e Alisdair Macindoe, que trazem 64 instrumentos robóticos de percussão para uma coreografia minimal. Estes são apenas alguns dos elementos que se entrelaçam na BoCA e que, através de múltiplas interseções, cruzamentos e paradoxos, dão forma a um movimento que, sendo essencialmente cultural, é também social e político.

UMA REDE DE SINERGIAS

A BoCA é um laboratório de democratização cultural. De 17 de março a 30 de abril, as atividades concentram-se em Lisboa e no Porto, expandindo-se depois para outras regiões: as peças que estreiam na bienal serão apresentadas em cinco regiões do país e internacionalmente. Esta expansão constitui um retorno do investimento feito nos artistas e nos participantes (entre eles o público): os públicos encontram e entram em contacto com obras e novos artistas, enquanto os artistas fazem circular o seu trabalho a nível nacional e internacional.

Outro dos pilares da BoCA é o seu programa de mediação, que abrange quatro cidades do país (Lisboa, Porto, Castelo Branco e Braga) e inclui diversas ações: laboratórios de pensamento e criação, oficinas, conferências, debates e encontros com artistas. Através deste contacto com estudantes e professores, universidades e escolas técnicas, a BoCA envolve públicos não especializados — incluindo adolescentes, jovens e seniores — que acompanham a preparação da bienal e seguem o processo de criação das novas obras até à sua estreia. A equipa BoCA sub-21, composta por jovens com menos de 21 anos, é um bom exemplo disso. Ao longo de três meses acompanharão os preparativos da bienal e o trabalho dos artistas portugueses envolvidos, resultando num projeto de documentação e em publicações regulares no blogue da bienal. Destaco ainda a videoteca BoCA, situada no foyer do Teatro Nacional D. Maria II, onde é possível ver ou rever obras que não estão disponíveis noutros contextos.

Concebida como um evento transversal e expandido, a BoCA cria sinergias entre pessoas e instituições culturais nacionais e internacionais (museus, galerias, teatros, discotecas), incluindo ações pontuais no espaço público, entre territórios artísticos (artes visuais, artes performativas, performance e música) e os seus respetivos públicos. Esta sinergia singular permite à população em geral aceder a uma pluralidade de práticas criativas e promove o diálogo entre indivíduos, grupos com características específicas e comunidades que habitualmente não comunicam entre si.

O programa inclui projetos com ideias e imagens metafóricas que refletem a dupla relação da arte com a poesia e a política. O conjunto de imagens produzidas pelos artistas do programa evidencia o papel dos artistas como “semionautas” (Nicolas Bourriaud). A partir de diferentes tempos e estilos, e de signos pertencentes a tempos-espaços distantes entre si, criam imagens que refletem uma visão globalizada da cultura. Esta visão reflete o tempo em que vivemos — uma geração líquida, marcada pela velocidade, pela tecnologia e pela expansão do conhecimento (virtual) que desenraíza o corpo da sua terra natal, porque “somos nómadas perfeitos”, como escreve Paul Virilio. Os artistas absorveram esta qualidade da globalização e as suas linguagens, flutuando por territórios híbridos, refletem frequentemente a atual justaposição entre mundos materiais e digitais.

Em resposta a esta condição, durante os dois anos de preparação da primeira BoCA encontrei-me com artistas para lhes propor a criação de obras originais fora das suas áreas habituais de atuação ou dos espaços que normalmente habitam. Estas propostas supostamente “desviantes” não são mais do que extensões da identidade-corpo que cada artista compôs e que lhe é inteiramente própria. Extraindo uma qualidade ou característica do seu trabalho existente, sugeri, por exemplo, aos artistas visuais João Maria Gusmão e Pedro Paiva que concebessem uma exposição para o palco do Teatro Nacional D. Maria II. Propus ao dramaturgo e encenador argentino Rodrigo García que criasse uma instalação para o Museu Nacional de Arte Antiga; e a Salomé Lamas que concebesse a sua primeira peça para teatro. Outros artistas apresentaram propostas próprias para criar trabalho num meio diferente: a artista-ativista cubana Tania Bruguera confessou o desejo de encenar Endgame, de Beckett, um texto que tinha lido em 1995 e que ainda conservava cheio de anotações. A peça estreará no Porto e seguirá em digressão internacional. O duo artístico Ana Borralho e João Galante estreará um concerto-instalação para um espaço não teatral, o Pavilhão Branco do Museu da Cidade.

A BoCA é um lugar de interseções, exceções, reflexão e experimentação artística, mas não se limita à arte. A dinâmica de troca que se estabelece entre instituições, artistas e públicos permite que públicos portugueses e internacionais descubram um programa vasto e diverso nas áreas das artes visuais, artes performativas, performance e música, através de um mapeamento das instituições culturais que se unem para abrir as suas portas à primeira BoCA. A bienal é um gesto partilhado que coloca o mundo em movimento: artistas, técnicos, produtores, públicos, programadores, diretores artísticos, críticos, pensadores, políticos, cidadãos do mundo — todos, na sua diversidade, num só movimento, BoCA. Eu, instigador deste gesto coletivo, posiciono-me como diretor artístico mas também como artista: questiono os processos criativos e construtivos, os lugares de representação e transmissão, o papel do artista e do público. A escolha de quatro artistas residentes para 2017-2018 — o coreógrafo e performer francês François Chaignaud, os artistas visuais portugueses Musa paradisíaca, a realizadora portuguesa Salomé Lamas e a performer e artivista cubana Tania Bruguera — nasce do desejo de aprofundar a relação com artistas de diferentes territórios artísticos e países, pensar em conjunto, compreender o que os move e ajudá-los a produzir e estrear novas obras em Portugal abertas ao mundo.

Ver e tornar visível são dois gestos postos à prova neste programa, refletindo sobre o poder inquietante da arte que questiona o nosso olhar e revela aquilo que nos rodeia. Esta é a minha proposta ao público: que olhe através dos olhos dos artistas, que se permita experimentar outros espaços - novos templos - livremente, que encontre outros públicos, que troque perspetivas e que se torne parte do movimento que é a BoCA; um movimento que se inscreve na cidade, deixando um rasto e uma cor - como os skaters que rapidamente colorem as ruas de Lisboa e do Porto no vídeo promocional da BoCA.

Até breve.

  • John Romão Diretor Artístico

  • Ana Rita Osório Direção de Produção

  • Helena Marteleira Imprensa e Assistência de Comunicação