John Romão
Diretor Artístico

 

Antes (de tudo e antes) do depois, o humano

 “Onde a travessia é possível, o mapa de uma nova sociedade começa a ser desenhado, com novas formas de produção e de reprodução da vida.”
(Paul B. Preciado, 2021)

 “Temos de ocupar os vazios com afeto.”
(Ailton Krenak, em entrevista BoCA Online, 2020)

 

A BoCA habita a travessia entre territórios artísticos, entre espaços de cultura e de natureza, acolhe os públicos como constituintes de seres polissémicos que não precisam de se identificar – aquilo que interessa é a geração de vida, a troca de experiências e conhecimentos que se processa no coletivo. O que importa é a relação de empatia radical que a BoCA, agente de um ecossistema artístico ancorado nas travessias, deseja acolher.

Esta edição da BoCA mantém viva a sua missão no apoio a novas linguagens, privilegiando os espaços ‘entre’ – por exemplo, entre o performativo e o visual –, novas comissões a artistas portugueses e estrangeiros, no diálogo trans (por isso, transgénero em todas as suas significações) implementando projetos que propõem uma nova consciência e modelos entre práticas artísticas e sustentabilidade.

Face à nova Era civilizacional que experimentamos, o único caminho confiável é agir, dar passos concretos, mesmo que pequenos, em direção a uma transformação de longo alcance. O caminho que se abre como desafio perante nós é o de busca de uma nova consciência, novos modelos, novas identidades e novos dissensos.

As correntes de inovação e de recurso ao digital dirão que é tarde para refletir sobre o humano, de o reivindicar, e que devemos investir esforços na reflexão do pós-humano. Diante da presente desumanização a que assistimos, parece-me que nos deparamos perante o grande desafio das nossas vidas, que a pandemia apenas veio tornar mais evidente: fazer da responsabilidade ética de vida e deste lugar ‘entre’ e ‘trans’ que desejamos construir um lugar de amor. É para aí que se convoca a programação desta edição da BoCA, abrindo espaço à polissemia dos lugares de fala, pondo o dedo nas feridas do passado que ainda não enfrentámos, perspetivando um futuro possível para ser construído em conjunto. Em plena tempestade de crise ecológica, crise económica e de valores, apoiemo-nos na visão sábia de Bruno Latour (que também se faz presente nesta BoCA) quando afirma que temos duas possibilidades para encarar o momento que vivemos: a catastrofista, em que aceitamos que está tudo a acabar, e nos demitimos das nossas responsabilidades; e a otimista, em que afirmamos que aprendemos que tudo está sempre plenamente em processo de renascimento. Daí o eco que a conferência-performance “Moving Earths” em colaboração com a socióloga Frédérique Aït-Touati faz com o século XVII e o Renascimento, de apresentação de um Novo Mundo Novo.  


Novas narrativas coletivas 

Num tempo de crise global caraterizado por conceitos de fluidez – do tempo, do espaço, de verdade, de identidades, de ser vibrante, de vida – em que a história se assume como um espaço aberto a novos sujeitos e a novos olhares críticos, necessitamos de construir em conjunto narrativas e elementos que nos inspirem e mobilizem para nos reconetarmos à mais profunda dimensão humana. “É desolador que a terra seja hoje tão brutalmente explorada. Como que sangrada, e quase sem sangue”, como escreve Byung-Chul Han em “Louvor da Terra”.

Com “O Barco”, Grada Kilomba cria não só a sua primeira obra para o espaço público como inaugura uma nova narrativa coletiva nesse mesmo espaço público, construída a partir da história da desumanização, da violência e do genocídio dos povos africanos e indígenas. 

Como podemos construir novas narrativas que reafirmem a história como uma construção fluída e não normativa? Como abrir espaços para narrativas ficcionais onde a imaginação possa curar o passado e remodelar o futuro? Odete em “On Revelations and Muddy Becomings” mergulha num diálogo entre história, arqueologia e investigação para recuperar o lugar do mistério e da fantasia no tempo presente. As fluídas personagens históricas por si convocadas para a performance, como os corpos que Miles Greenberg dispõe sob pedestais com areia, criam um novo imaginário compartilhado do ‘Todo-Mundo’ (Édouard Glissant), ou seja, é o que se procura: a humanidade por vir. Por seu lado, a artista lituana Anastasia Sosunova manipula a mitologia moderna e explora construções de iconografias e de símbolos, para moldar novas narrativas reveladoras e metamórficas, mas também o artista visual e performativo Carlos Azeredo Mesquita questiona com o seu projeto “Uber-Alles” as narrativas oficiais, hegemónicas e nacionalistas que os hinos contam sobre a identidade dos povos.

Como propor narrativas que reforcem as codependências entre seres vivos (humanos, não humanos, pós-humanos, agentes, atuantes, seres vibrantes…), através de uma perspetiva holística? Reconhecendo que todos somos natureza (Ailton Krenak), a criação performativa e instalativa de Andreia Santana convoca, a este propósito, uma interdependência entre esculturas, performers e bactérias depositadas nos objetos escultóricos através do contacto físico, oral e sonoro dos intérpretes. E como explorar vocabulários sustentáveis e inclusivos que, como em “Passages” de Noé Soulier, exploram o património motor que o humano partilha como os outros animais? 

Um teste a “Prove You Are Human” (acto quase primitivo de tão familiar se tornou na nossa relação com a Internet) prende-se com um ativar de uma empatia radical com a história, reescrevendo e reinscrevendo narrativas coletivas no presente que, por um lado, proponham a abertura da história a uma coexistência biodiversa a múltiplas vozes e, por outro, respondam às urgências de um mundo contemporâneo em crise, provocado sobretudo pelas alterações climáticas – e que leva o sol a falar diretamente para nós (“The New Sun” de Agnieszka Polska).

 

Limites do humano: imagem, linguagem e ruído

O filósofo Bruno Latour, de quem apresentamos a conferência-performance “Moving Earths” em colaboração com a socióloga Frédérique Ait-Touati, lança-nos a urgência de vivermos juntos, um desafio que inclui e acolhe toda a pluralidade do que constitui a vida no plano terrestre: “Se algures em 1610 tivemos de absorver o choque de que “a terra gira” enunciada por Galileu, em 2021 temos de aceitar o choque muito mais surpreendente de que a terra estremece e reage às ações humanas, a ponto de afetar todos os nossos projetos de desenvolvimento”.

Hoje precisamos redefinir uma nova geografia física e mental que traduza a necessidade de repensar a totalidade do mundo e esse desafio passa necessariamente pela representação do mundo através das imagens que constroem paradigmas e mitos. A arte é a linguagem, o media e elo de ligação fundamental na construção deste Novo Mundo Novo. É esta visão do mundo que, face ao tremor da ação direta provocada pelo humano, aproxima Bruno Latour da construção efémera do dispositivo teatral.

O mundo mental que construímos a partir das produções visuais e cognitivas a que estamos expostos, com maior ênfase no contacto com o digital, tem uma afetação na neuroplasticidade e no nosso cérebro. A exposição do humano ao digital fragmenta e dificulta, segundo Byung-Chul Han, um agir coletivo e provoca danos na nossa subjetividade. O risco da ditatura psicopolítica que o digital oferece coloca em risco o humano. O encenador Romeo Castellucci traz-nos, precisamente, com “O Terceiro Reich” a imagem de uma comunicação imposta e obrigatória, cujo autoritarismo se esconde atrás da reivindicação de igualdade. Numa grande tela, vemos projetados todos os substantivos do dicionário italiano, que são disparados um a seguir ao outro através de uma máquina híper-veloz que os despe de significados e sentidos, torna-os iguais, num esvaziamento em massa. Uma agressão militar do digital, que separa e fere o humano, atrás do espectro da “liberdade”.

É também com a consciência cívica e afetiva que promova uma rutura radical de tendências fascistas e anti-democráticas que devemos testar a nossa humanidade: “Prove You Are Human”. Um dos melhores exemplos da presente programação está na capacidade mobilizadora do coletivo ativista e feminista LASTESIS (Chile) que, em 2020, expandiu por mais de 50 países a performance de rua “Un Violador en tu Camino”, provando, através de uma empatia radical, a sua humanidade. Conscientes de que a natureza é afetada por essa mobilização física, cultural, social e política, de que somos apenas um elemento mais, as artistas e ativistas chilenas vêm a Portugal pela primeira vez para desenvolver, com cerca de 80 mulheres e dissidentes locais, a performance “Resistência”, que propõe denunciar a violência do pensamento colonial e de um extrativismo ativo. Também Grada Kilomba abre o caminho de rutura com uma visão do passado opressora e colonialista, com as performances que irá dirigir em torno de “O Barco”, em que torna protagonistas comunidades da diáspora africana, criando um espaço de reivindicação, de lamentação e de ritualidade para que a História possa ser recuperada e reescrita.

De forma diversa, Pedro Costa toca na mesma ferida. Utiliza o vídeo, o teatro e a música com Os Músicos do Tejo, para criar uma narrativa ficcional que volta a colocar a ênfase no pós-colonialismo. A estreia em Portugal do fotógrafo e realizador norte-americano Khalik Allah mostra-nos os rostos dissidentes das ruas de Nova Iorque, com um olhar desarmante que expõe uma humanidade visceralmente bela.

 

Escalas afetivas 

Mónica Calle (“Entre o Céu e a Terra”) ou Dayana Lucas (“Katabasis – Anabasis”) dirigem a sua atenção para o espaço público, natural e o urbano, por onde conduzem grupos reduzidos de espetadores por percursos intimistas levando-os a lugares desconhecidos. Mónica Calle regressa à intimidade, inspirando-se nas palavras de Fiama Hasse Pais Brandão, para nos relembrar de que estamos ligados: “No Apocalipse os demónios arrependidos serão anjos e os anjos culpados serão demónios, ligados, fisicamente, costas com costas”.

A escala dos afetos e da proximidade está bem presente também nas criações de Joana Castro e Maurícia | Neves que fazem, a partir de uma situação micro, de vulnerabilidade emocional (o fim de uma relação amorosa), um trabalho que reflete o macro, um mundo em ruptura, em revolução. André Uerba reafirma esse lugar de proximidade, de reivindicação do não distanciamento social que caracteriza as suas criações performativas e propõe explorar as diferentes dimensões do tato, as suas propriedades, qualidades e complexidades, propondo a quebra de qualquer tipo de barreiras entre os intérpretes.

O realizar de cinema Gus Van Sant estreia-se com a sua primeira criação de palco, o espetáculo de teatro musical “Andy” inspirado na história de Andy Warhol. Aqui, Gus Van Sant não só recupera uma narrativa da história de arte que faz um corte radical com o passado, propondo uma mudança de paradigma sobre o corpo, o tempo, a câmara e uma poética sustentável assente em relações interpessoais e de proximidade afetiva. São narrativas documentais que combinam a escrita ficcional, num reavivar da crença no coletivo e na criação de novos movimentos com a força de nos religarmos ao humano. Para além do ineditismo desta performance no conjunto da obra cinematográfica e artística do realizador norte-americano, esta é também invulgar por trazer para Lisboa, como lugar de criação do espetáculo, a memória de um tempo marcante da cultura pop mundial, protagonizada por Andy Warhol e que Gus Van Sant viveu de dentro. Este novo Nova Iorque – Lisboa – Nova Iorque reafirma também que estamos todos ligados, ao mesmo tempo que deixa transparecer na narrativa construída por Van Sant a importância do lugar dos afetos e da amizade.

 

A Defesa da Natureza

Tudo se liga nessa conceção genérica que todos participamos do todo e o humano é uma noção vasta que inclui entidades várias, algumas nem sequer nomeáveis e que encontra na natureza o seu eixo central. Nesse sentido, quase inevitavelmente, a BoCA propõe aliar a programação artística aos espaços naturais e para tal, ao longo de 10 anos, desenvolve o projeto “A Defesa da Natureza”, inspirado no legado de Joseph Beuys.

O gesto que compõe “Plantação de 7.000 Árvores” divide-se entre 7.000 plantações de novas criações (naturais / artísticas) de espécies autóctones, fertilizando um projeto a longo prazo, em que novos municípios e milhares de artistas nacionais e estrangeiros (onde se inserem os cidadãos comuns, aqui revisitados enquanto artistas) serão os agentes da construção de uma floresta de artistas e de obras de arte. Nesta diluição dos papéis entre natural e humano e artista e não-artista, Beuys afirmou a icónica frase de que “todos podemos ser artistas”. À luz desta proposição, afirmamos: “todos podemos salvar o mundo”. Agir nesse sentido é o passo necessário a dar para o um teste de identidade que afirma a nossa humanidade. É precisamente neste lugar pulsante entre a arte e a natureza que se situa “Quero ver as minhas montanhas”, com curadoria de Delfim Sardo e Sílvia Gomes, com a participação dos artistas Sara Bichão, Diana Policarpo, Dayana Lucas, Gustavo Sumpta, Gustavo Ciríaco, Musa paradisiaca e o coletivo Berru.

Se o CAPTCHA (Teste de Turing automatizado para distinguir entre computadores e seres humanos) é um teste de segurança conhecido como autenticação por desafio e resposta, a 3ª edição da BoCA lança o desafio “Prove You Are Human” (Prova Que És Humano) e ouve respostas e questões não só dos artistas que compõem a sua programação, como propõe ao público que faça o teste através premissas que ela propõe, a partir da experiência estética, da reflexão e do convite à ação. Este pequeno movimento nesse sentido, que constitui a programação desta edição da bienal, é possível graças às entidades de financiamento, às parcerias institucionais, aos coprodutores, e aos apoios que reunimos em torno desta edição e aos quais agradeço enormemente.

Esta pluralidade de ritmos, de formatos, de géneros e de relações constitui a travessia de que nos fala Paul B. Preciado e que assenta em misturas que nunca param na revelação da natureza, como é exemplo o projeto de António Poppe & La Família Gitana (em que a poesia de Camões e de Davi Kopenawa, dos Índios Yanomani, se junta à poesia de Camões) ou nas novas formas que Tânia Carvalho e Matthieu Ehrlacher experimentam a tradição, com o Rancho Folclórico da Casa do Minho de Lisboa. Os cruzamentos e as transcendências das segmentações e catalogações, no elogio de uma comunidade das diferenças, assenta em políticas de cuidar que convocam outras questões de fundo, como as migrações e os motivos que as sustentam, como em “Brasa” de Tiago Cadete, o feminino e a sua condição histórica, que Anne Imhof reflete em “Untitled (Wave)”, e as futurologias sonoras e visuais que Jonathan Saldanha faz emergir no espaço vegetal, à semelhança de Capicua com Tiago Barbosa que apresentam “A Tralha” no espaço natural.

Proponho nesta edição da BoCA uma programação que combina diferentes ritmos de projetos e de relações com artistas e instituições, apoiando-se numa transição de processos de produção e de criação, integrados, plurais e sustentáveis, a saber: projetos de curta duração que reforçam o compromisso artístico e ético com artistas e estruturas de produção, criações que se prolongam no tempo e no espaço por meio de maior compromisso face à curta efemeridade do teatral e do performativo (Grada Kilomba, Miles Greenberg, Mónica Calle), relações sustentáveis e a longo prazo com artistas e projetos (Gus Van Sant, Grada Kilomba, Odete e Miles Greenberg são os Artistas Residentes em 2021-2022), aprofundamento de reflexões e processos de longa duração que combinam performatividade, visualidade, ativismo e neurociência (Tania Bruguera e Jonathan Uliel Saldanha, com destaque para a parceria com a Fundação Champalimaud nas residências artísticas com neurocientistas com duração de 2 a 3 anos), um foco na relação direta e representatividade de comunidades locais, artísticas, associativas e de setores diversos, cuja participação ativa é implicada no desenvolvimento criativo de projetos, (LasTesis, Grada Kilomba, Musa paradisiaca, Miles Greenberg, Gus Van Sant, projeto A Defesa da Natureza), para também iniciar um ecossistema inter-relacional entre arte, sustentabilidade e ciência através do projeto A Defesa da Natureza, desenvolvido a 10 anos e que convoca artistas e populações de geografias diversas, parcerias institucionais e académicas (Liga para a Proteção da Nature, o Centro de Ecologia Aplicada do ISA, o CENSE da FCT/Nova, da Universidade do Algarve, e os municípios de Lisboa, Almada e Faro).

 

Prove You Are Human.