Reconstruir o futuro – sobre a performance “Ordem e Progresso” de Héctor Zamora

Cláudia Galhós
23 Março 2017

Reconstruir o futuro

Trinta homens para uma performance que destrói sete barcos de pesca portugueses, se enrosca na morte, para trazer a vida à superfície do mundo. Assim nasce, dos destroços que restam, a exposição “Ordem e Progresso” de Héctor Zamora, no MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, em Lisboa (até 24 de abril)

Texto de Claudia Galhós

Fotografias de Bruno Simão

 

Por que não estão mulheres ali? Ali, naquele espaço interior amplo, branco, ocupado por sete barcos de pesca portugueses. Antes de qualquer corpo ali entrar, a imagem suscita um breve pensamento de nostalgia de um tempo em que a pesca era ainda uma forma comum de ganhar a vida. Os barcos… esse meio de deslocação que o tempo tem carregado de um peso misto de esperança e morte.

Nessa instalação, as embarcações são muito distintas, mas todas elas sugerem uma escala humana, familiar, laboral. Deliciosamente belos nas suas imperfeições, na pintura lascada, na deterioração e no desgaste que o uso dá à matéria. Essa qualidade contrasta com o branco imaculado da sala oval do MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (Lisboa), onde o visitante-espectador se vai dispondo em redor do círculo imperfeito, na escala horizontal e vertical, que cria a linha de fronteira do centro interior.

Pouco depois das 18h entram trinta trabalhadores braçais, habituados ao peso das marretas, a agressividade dos machados e o esgotamento do corpo pelo uso apenas da força física para destruir embarcações que, no caso das duas maiores, seria mais evidente serem demolidas por buldozers. Mas o significado que produz a demolição e a destruição, que está no centro da acção da performance, que dura cerca de duas horas, que inaugura a exposição “Ordem e Progresso” do mexicano Héctor Zamora, não se esgota nesse acto. As ramificações dos sentidos que cria, as questões que lança, são muito mais amplas e balançam-se precisamente num equilíbrio muito precário, onde vida e morte coexistem numa intimidade pornográfica.

Todo o processo de desmantelamento dos barcos, assim enquadrado, com os sons da destruição compondo uma banda-sonora rica nos temperamentos e texturas, chega a ter o efeito do seu oposto: um hipnotismo sedutor a que sucumbem os sentidos, esquecidos do tempo real e projectando o estar para um plano meditativo. Sem ser essa a proposta, não deixa de ser significativa a instalação de uma atmosfera que, deslocando a acção para fora do seu contexto natural, da vida, imprime uma qualidade ritualística que, nesse e noutros sentidos, acaba por permitir relacionar inesperadamente com outras peças que a bienal BoCA já apresentou – só relativamente à programação em Lisboa: “Pinball Bosch – venha jogar com Deus e com o diabo” de Rodrigo García (que pode ser visto e jogado até 30 de Abril, no Museu Nacional de Arte Antiga), “Tau Tau” dos Von Calhau! (apresentado no Teatro da Politécnica, nos passados dias 17 e 18 de março), a performance-concerto-ritual-sacrificial de Tianzhuo Chen, Aïsha Devi & Asian Dope Boys (Lux/Frágil, no passado dia 16) ou mesmo a exposição de desenhos “Toledo” de Tânia Carvalho (inaugurada a 18 de março, patente ao público até 1 de abril, no Teatro da Politécnica, e que depois se apresenta no Palacete Viscondes de Balsemão, no Porto, de 5 a 30 de abril).

Outro dos elementos recorrentes é a inocência perdida relativamente ao uso das imagens construídas, na consciência de que a selecção e organização dos elementos imagéticos transportam uma cosmogonia simbólica, inevitavelmente contaminada tanto pela grande história do mundo como infectada pelos usos e atributos particulares de cada povo, cada indivíduo, cada cultura. Uma inocência perdida informada pela carga de significados que enterram, ou pelo menos agrilhoam, as imagems que se vão acumulando em leituras inevitavelmente associadas à vida quotidiana.

O pensamento faz-se à água e navega em muitas direcções. Claro que pensamos nos homens que durante gerações puderam viver da pesca em Portugal. Claro que pensamos nos migrantes que se amontoam em precárias embarcações, muitos deles perdendo-se no mar. Claro que nos lembramos das guerras, dos terroristas, dos destroços das vidas, das casas abandonadas, das mudanças de paradigma que impedem as pessoas de ganhar o pão com a profissão que pensaram ser para toda a vida. Claro que nos lembramos da exploração dos emigrantes não especializados. Claro que nos lembramos de tantas pessoas sem pátria, que não pertencem a lugar nenhum. Claro que nos lembramos dos filhos de emigrantes que continuam sem poder aceder à nacionalidade do país onde nasceram. Claro que nos lembramos da grande viagem de Ulisses. Claro que nos lembramos que hoje as máquinas, as novas tecnologias, tendem cada vez mais a substituir o trabalho braçal. Claro que nos lembramos que o planeta está a morrer. Claro que nos lembramos do desperdício que está a matar a natureza e a baralhar o clima. Claro que nos lembramos da ameaça da próxima extinção: a do homem na terra. Claro que nos assombramos perante essa visão tão clara de que a vida humana anda a ser comercializada ao desbarato. Não vale nada. Claro que nos recordamos do poeta, esmagados pela beleza da ruína. E depois… o horror.

Por um instante, enquanto trinta homens destroem sete barcos, somos apanhados, desprevenidos, perante esse deslumbre e fascínio pela ruína, que domina toda uma visão estética que surge com as vanguardas no século XIX, que contraria a valorização da perfeição irreal, desse belo clássico. Dá-se um nó na garganta quando nos damos conta que, ali, hipnotizados pela continuidade, a compassos distintos, daquela acção de devastação, essa beleza dos escombros, em que se emaranham os sentidos, corresponde na exacta medida à ruína das vidas ali representadas. E por alguns instantes, os valores estéticos, que comportam uma visão da sociedade, que pensamos ser humanista, fraterna e plena de desejo de partilha, na verdade é o disfarce do fascínio perverso do voyeur que saliva por assistir à desgraça alheia. Tudo está novamente em causa. É isso mesmo que os criadores contemporâneos nos dizem, relativamente a muitas questões que reemergem. Perante a performance de inauguração da exposição de Hector Zamora surgiram muitas, e esta é particularmente perturbadora: negar o belo da antiguidade, pela sua falsidade, artificialismo, comovendo-nos por um belo imperfeito, rugoso, decadente, mais real e humano, não poderá significar que, no fundo, é a esse espectáculo da dor e do sofrimento que queremos assistir? Será que os limites não estão na polémica de mostrar um cão que está a morrer à fome num museu, mas antes no encontrar dentro de cada indivíduo, cidadão, espectador, visitante, que em cada paisagem do caos se deslumbra, vislumbrando o extremo desse abismo, que é a mair profunda e extrema dor alheia, que não quer admitir para si mesmo? Este é outro aspecto fundamental que une os artistas aqui referidos e os seus gestos criadores: lançar questões, enigmas, dilemas, rejeitar certezas ou respostas unívocas quanto a possibilidades de ver o mundo através da sua arte.

Entre o muito a que vamos assistindo na performance, nesse embalo quase de meditação, a mente visita outras imagens possíveis, alternativas às que nos são apresentadas e interroga-se sobre o quanto as leituras possíveis daquilo a que assistimos se multiplicariam em direcções tão diversas alterando alguns elementos da equação. E se ali não estivessem homens, mas mulheres? Que significaria esta imagem se ela fosse activada pela execução da destruição por 30 mulheres? Um grupo feminino a evocar a memória da estatura sólida de tantas portuguesas que se despediram vezes sem conta dos seus homens que partiram para o mar, para a pesca, sem saber se voltariam? Aquelas mulheres de pele curtida pelo sol, o coração apertadinho, a fazerem-se de fortes, vestidas de preto, a dizer adeus à partida dos barcos? Pudessem elas, não se tivesse antecipado a Política Comum das Pescas da União Europeia, que tornou obsoleto muito do trabalho no sector piscatório, e tivessem elas alternativa à forma de ganhar a vida, e seriam certamente as primeiras de marreta em punho a destruir os barcos, para os maridos não mais partirem. A imagem de negro, dessa mulher que veste a viuvez antes dela lhe bater à porta, predomina ali na cor da pele dos homens que com força humana, desgaste muscular, marretas, serras e machados na mão, destruiram os sete barcos de diferentes tipologias e dimensões. Às tantas, alguém da assistência aplaude e lança gritos de ânimo para que o empenho no esforço aumente. No final, aqueles mesmos homens, trabalhadores precários, que poderiam estar a executar um acto semelhante numa construção, foram aplaudidos, como performers de direito próprio.

[A ideia de sacrifício e punição também é outro elemento comum a todas as peças aqui referidas.]

Quem está a assistir, assume o seu papel convencional de espectador perante um número de exibicionismo de uma arte extinta ou a caminhar para a extinção – podemos ir para os contextos de gladiadores nas arenas, das batalhas navais encenadas, de números de contorcionismo circenses e outros desta família… O barco, a viagem que atravessa o mar, precária, o naufrágio… todos estes elementos participam de uma simbologia comum transbordam as fronteiras de Portugal. São imagens de perda que fazem parte de um espírito do tempo onde o mar que nos separa é esperança de futuro melhor mas que, para o alcançar, implica um sacrifício, dar-se à morte. Construção, destruição e reconstrução fazem todos parte da mesma família nuclear: a fragilidade da existência humana. A aparência é que o que resta, o que fica exposto, é o resultado da destruição, mas comentava um visitante mais esclarecido que, talvez, o facto de ficar exposto, o estatuto que esse contexto lhe atribui, implica que houve reconstrução. Talvez naqueles destroços possamos vislumbrar a reconstrução de um horizonte de futuro.

Ordem e Progresso” de Héctor Zamora, com curadoria de Inês Grosso, numa produção do MAAT em parceria com a BoCA.

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