A FORMA PELO DESVIO – Museum of Skateboarding de Kirill Savchenkov

Sara Castelo Branco
28 Março 2017

A FORMA PELO DESVIO

Museum of Skateboarding de Kirill Savchenkov

 

Texto de Sara Castelo Branco

Fotografias de Bruno Simão / BoCA

 

Formando-se pela dissecação interna dos seus elementos constituintes, o skate assoma enquanto forma decomposta em Museum of Skateboarding (2015-2016) de Kirill Savchenkov, concebendo-se numa dinâmica disruptiva, onde não vemos o movimento do corpo pela usual moção do skater no espaço urbano, mas antes um exercício de redução desse mesmo movimento a uma série de gestos e arquétipos simbólicos e sígnicos que o convocam em profundidade. Os dois filmes que compõe Museum of Skateboarding desvinculam assim as partes constitutivas do skate para – a partir da decomposição dos seus movimentos e intenções, relacionando-os com outras actividades humanas –, transformá-lo num conjunto de possíveis competências práticas de sobrevivência na cidade.

Transitando em práticas corpóreas que podem convocar o jogo, a performance, a religião ou a luta, as acções corporais presentes nestes filmes não se fecham no estaticismo de uma possível museologização imutável do skate (potencialmente anunciada na denominação da obra), abrindo-se antes na potencialização da acção; na possibilidade actuante de um outro modo de entender os objectos, onde o skate faz-se arma ou escudo, desporto ou combate. Por outro lado, estes filmes radicam simbolicamente no próprio carácter do local onde as imagens são projectadas, a parte exterior da Casa da Música – que usualmente se vê circundada por skaters –, dispondo em acordo duas circunstâncias que, ocorrendo simultânea e praticamente no mesmo espaço, se veem desunidas pelas moções inversas que se realizam no seu interior e exterior, na casa e na rua. Desta forma, o skate manifesta-se numa dinâmica que retrocede ou se expande sobre si mesma: a sua verticalidade vê-se projectada na horizontalidade do edifício, num redobramento virtualizado do movimento desses skaters que usualmente habitam o espaço.

Partindo de um entendimento da cidade a partir da acção que nela se desenvolve, o espaço assoma convocado (embora fisicamente ausente) em Museum of Skateboarding como território subjectivo, constituído distopicamente por possíveis amorfismos, rupturas, segmentações e justaposições, circunstâncias intrínsecas à própria manipulação das formas citadinas pelos skaters. A obra de Savchenkov parece, portanto, afirmar a presença de um espaço que não sendo estável, nem tão pouco fixo, está sujeito à re-significação dos seus discursos e práticas através destes skaters-monges-guerreiros, agentes que transformam o skate num objecto hibridado entre o corpo e o espírito, integrando-o numa rotina de exercícios engendrados pela fusão entre mantras, epigramas filosóficos, artes marciais, treino militar e fitness. Os filmes convocam assim uma espécie de identidade mnemónica presente numa linguagem especifica que advém de um entendimento intuitivo do espaço pelos skaters; uma potência muscular da memória que desponta no movimento reflexivo de um corpo moldado e instruído a ver e a navegar as formas urbanas – expressando portanto uma espécie de habilidade intuitiva que advém pela repetição, tal como os próprios mantras ou artes marciais. Neste sentido, abordar a noção de resistência na prática do skate envolve também convocar a sua insubordinação à normalização e ao utilitarismo da arquitectura citadina – questão paradigmática do local onde os filmes de Savchenkov são projectados no Porto –, pois os skaters negam a funcionalidade das formas arquitectónicas, desabilitando-as das suas funções, e, acercando-se assim simbolicamente do próprio carácter do fazer artístico. Esta decifração formal da arquitectura pelo skate concebe-se num entendimento maior da própria posição do individuo no seu ambiente, que se liga livremente a uma certa concepção multiforme de Construtivismo: o que é substituído pelo como, cada forma de percepção e conhecimento é concebida como construção activa do indivíduo sobre o meio, uma accionalidade quotidiana imune à reprodução passiva da inacção.

Tanto positivo como negativo, convergente como divergente, as formas da cidade são assim para os skaters matéria de aceitação formal – pelo centramento na sua composição arquitectónica –, como motivo de transgressão do espaço público – ao infringirem a possível imposição ideológica da arquitectura, disciplina que define a direcção dos corpos e o seu comportamento nos lugares, implicando um modelo baseado no consenso. Desta forma, este espaço duplamente material (produzido, construído) e mental (ideológico, sígnico, discursivo) apresenta-se obliquamente na obra de Savchenkov, que convoca a figura do skater como instigador actuante e insubmisso num possível horizonte distópico, onde – tal como acontece frequentemente na prática do skate – os obstáculos volvem-se recursos para uma nova forma de movimento, que abdica da facilidade, para procurar as conformações complexas. Considerando assim não a realidade do espaço, mas o espaço como condutor pluriforme de real, a reconsideração das formas e dos comportamentos em Museum of Skateboarding através desta concepção de uma linguagem gestual do skate, rompe a relação propositiva, convencional e consensual entre o sujeito, o objecto e o espaço, figurando-se antes como forma que se realiza pelo desvio.